Opiniões Técnicas

Análise de cenário Ibovespa – 2017

Análise de cenário Ibovespa – 2017

  1. Conjuntura Econômica

O nível de incerteza no cenário internacional é fator determinante para a análise do mercado de renda variável do país, onde os investidores tendem a operar com cautela até que haja uma melhor definição das medidas a serem adotadas no governo de Donald Trump, nos EUA.

Cabe ressaltar que as atenções em 2017 estarão voltadas, também, para os processos eleitorais que ocorrerão em países que compõem a zona do euro, como França e Alemanha, em função do crescimento de forças nacionalistas que ameaçam a estabilidade política e econômica da região.

Além disso, a evolução do cenário chinês também estará no radar ao longo do ano. A expectativa é de que o novo padrão de crescimento mais moderado seja mantido, apesar das medidas adotadas pelo governo para estimular o crescimento do país.

No Brasil, as perspectivas apontam para um cenário mais otimista que no ano anterior. Em que pese o andamento da operação Lava-Jato e os riscos políticos embutidos na investigação, a expectativa é de que os indicadores econômicos iniciem uma trajetória de recuperação, ainda este ano, com melhora dos índices de confiança, estabilidade da inflação e queda da taxa Selic.

  1. Cenário: Bolsa de Valores

O mercado de renda variável apresentou desempenho acima do esperado em 2016. O Ibovespa encerrou o período com ganho nominal de 38,94%, aos 60.227 pontos. O movimento foi fortemente influenciado pela trajetória de alta dos preços das commodities e pela definição mais clara do cenário político do país.

Para o fim deste ano, os principais agentes do mercado apontam para um Ibovespa acima dos 70.000 pontos. Tal projeção baseia-se, entre outros fatores, no potencial de valorização das empresas no Brasil. Além disso, a perspectiva de melhora da economia, ainda que de maneira lenta e gradativa, tende a tornar investimentos no país mais atrativos.

A maior parte das ações que compõem o Índice Ibovespa encerrou o ano com ganhos. Destaque para a Bradespar, que registrou valorização de quase 200% no período. As ações que apresentaram resultado negativo, em geral, refletiram a desvalorização do dólar (queda de 17,88% no período). São empresas exportadoras ou que possuem sua receita dolarizada. Estão entre os destaques de baixa as ações da Embraer, Fibria e Suzano.

Os investidores estrangeiros também tiveram os ganhos potencializados pela apreciação do real ao longo de 2016. O saldo de investimento estrangeiro encerrou o ano registrando ingresso de R$ 13,291 bilhões. Em referência a esse saldo do investidor externo, é importante ressaltar que a entrada desse tipo de capital é a mais representativa na bolsa brasileira, sendo sua participação responsável por quase 50% do total captado.

Comparativamente, o fluxo de capital estrangeiro acumulado até 31 de janeiro, no país, foi de R$ 5,918 bilhões. No mesmo período do ano anterior, ainda sob a influência das indefinições políticas e recessão econômica que assolavam o Brasil, esse valor foi de R$ 1,575 bilhões.

  1. Avaliação de Tendência

Para avaliação de uma tendência da bolsa para o fim deste ano, optamos por fazer uma breve análise dos principais setores que compõem o Ibovespa, considerando as expectativas positivas e negativas para cada um deles.

A utilização do índice Ibovespa tem como premissa ser o “indicador de desempenho médio das cotações dos ativos de maior negociabilidade e representatividade do mercado de ações brasileiro”, conforme definição da própria BM&FBOVESPA. Desse modo, tomaremos como base a avaliação dos setores de maior peso, conforme gráfico abaixo:

3.1 Análise dos setores

3.1.1 Setor Financeiro

O setor financeiro é responsável por quase 30% da composição do Ibovespa. Essa participação é composta por ações do Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander.

Com a recessão econômica vivida nos últimos anos, os principais bancos do mercado adotaram medidas restritivas, principalmente no que se refere a maior seletividade na concessão de empréstimos, a fim de controlar os índices de inadimplência, que vinham apresentando elevação em função do aumento do nível de desemprego e de endividamento das famílias e das empresas. Como consequência do cenário apresentado, o desempenho do crédito do Brasil encerrou 2016 com um saldo negativo de 3,5%, tanto no crédito livre como no direcionado.

Para o fim deste ano, a expectativa é de que a queda mais intensa da taxa Selic (que deve encerrar 2017 em 9,5%, segundo projeções da LCA Consultores) e a unificação e simplificação das regras de recolhimento compulsório – que possibilitam a redução dos custos operacionais dos bancos, viabilizem a redução dos juros cobrados dos clientes, reaquecendo o mercado de crédito do país.

É importante ressaltar, entretanto, que os bancos tendem a continuar seletivos nas concessões, até que os indicadores apontem para uma melhora consistente, ou seja, até que a confiança na economia mostre alguma recuperação nos próximos meses. Há de se considerar ainda, que as projeções apontam para a continuidade da deterioração do mercado de trabalho este ano, o que deve exercer influência direta sobre a demanda das famílias por crédito.

Em resumo, as perspectivas para o setor financeiro são de um cenário econômico mais benigno, em que haja uma recuperação, ainda que modesta, do mercado de crédito, com leve melhora do lucro líquido dos bancos. Os principais riscos para o setor são: elevação do desemprego, deterioração da qualidade das carteiras e ambiente internacional incerto, aumentando a aversão ao risco por parte dos investidores.

3.1.2 Setor Petróleo, Gás e Biocombustíveis

O último relatório mensal da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), divulgado em janeiro, sinalizou uma redução do excedente de oferta para 2017, além de indicar maior possibilidade de que países produtores, que estejam fora do grupo, entrem no acordo para reduzir a produção. Em uma base comparativa, foram produzidos 33,085 milhões de barris por dia, em dezembro, queda de 221 mil barris por dia, em relação ao mês anterior. Tais fatores devem sustentar os preços mundiais da commoditie este ano.

A Petrobras, empresa de grande peso nesse segmento, demonstra maior sintonia com as oscilações do mercado desde a alteração da direção da companhia que definiu um plano de negócios focado em reduzir o endividamento da empresa. Além dessa medida, a empresa reforçou a autonomia de seus executivos no que se refere à definição de preços no mercado doméstico, colaborando para a maior agilidade no processo.

Assim, o desempenho da companhia tende a ser positivo, beneficiado, ainda, pela percepção dos investidores de que a economia do país tende a iniciar um processo de recuperação ainda este ano.

A LCA Consultores estima que a produção total de petróleo no Brasil em 2016 tenha crescido perto de 3%. A expectativa é de ocorram altas contidas nos próximos dois anos e expansões maiores nas próximas décadas. Para 2017, portanto, o viés é positivo.

Os principais riscos apontados para esse setor são de não cumprimento do acordo da OPEP, resultando em uma produção maior que a esperada e influenciando negativamente os preços do petróleo. Para a Petrobras, a ameaça ainda estaria relacionada a maiores restrições em seu programa de desinvestimento e ao andamento das ações contra a empresa nos EUA.

A seguir, apresentamos a tabela de projeções da consultoria econômica LCA, para o setor:

Projeções LCA Consultores – 01/2017

3.1.3 Setor de Mineração e Siderurgia

Esse setor tem enfrentado problemas relacionados ao excesso de oferta, enfraquecimento da economia chinesa e redução no consumo aparente de aço. No entanto, alguma recuperação foi observada a partir do segundo semestre do ano passado, o que impulsionou o resultado das empresas e trouxe certo otimismo ao mercado.

Internamente, o mau desempenho sofreu ainda influência do cenário econômico fraco e do ambiente político instável. Setores relacionados ao segmento de aço, como construção civil e automotivo divulgaram, em geral, resultados menores que o ano anterior.

A expectativa para 2017 é de recuperação dos preços internacionais do aço. Na China, uma redução nos estoques, associada a uma melhora dos indicadores econômicos propiciou o aumento dos preços do aço. Nos EUA, a alta refletiu a melhora considerável dos números relacionados à indústria em geral. Há ainda a expectativa de que o governo de Donald Trump estimule a demanda em infraestrutura, em projetos no país.

No Brasil, produtores de aço estão direcionando seus esforços para o corte de custos na tentativa de compensar os menores volumes vendidos. Considerando que a recuperação dos índices de confiança é de vital importância para a retomada do crescimento e para o aquecimento desse setor, a tendência é de que os resultados sejam melhores do que em 2016, ainda que de forma moderada.

Os principais riscos apontados para esse setor são de uma demanda de aço mais fraca que o esperado e de recuperação mais lenta que o esperado da economia chinesa.

3.1.4 Setor – Consumo não cíclico/bebidas

A Ambev é a única ação contemplada por esse setor no Ibovespa. Ainda assim, sua participação equivale a mais de 7% da composição do índice.

O ambiente econômico recessivo afetou o consumo de bebidas em 2016. A produção registrou queda de 6% em novembro (comparado ao mesmo período de 2015), com contribuição negativa tanto da produção de bebidas não-alcoólicas (-3,6%), como na produção de bebidas alcoólicas (-8,1%). O baixo desempenho pode ser atribuído ao orçamento familiar pressionado, alto endividamento das famílias e aumento dos preços das bebidas, em virtude da majoração de impostos e encarecimento de insumos.

Para esse setor, a expectativa é de que haja alguma melhora em 2017, porém, ainda modesta. As projeções da LCA Consultores para o setor, demostradas abaixo, apontam desempenho estável no período, avaliando como premissa uma menor pressão inflacionária, o que tende a afetar a decisão de consumo das famílias.

Fonte: LCA Consultores – Setores – 01/2017

  1. Conclusão

As decisões nas esferas política e econômica, em 2016, mostraram impactos positivos no desempenho do Ibovespa. A bolsa encerrou o ano com valorização de 38,94%, aos 60.227 pontos.

Levantamento feito pela agência Reuters destacou o Ibovespa entre os principais índices do mundo, conforme demostrado a seguir:

Para 2017, a definição do cenário político e uma melhor perspectiva para os resultados dos indicadores econômicos, bem como a expectativa positiva para os setores avaliados nesse relatório, apontam para uma tendência altista da bolsa de valores brasileira. As propostas da nova equipe econômica têm sido bem recebidas pelo mercado e a percepção de que haverá uma redução mais forte da taxa Selic nas próximas reuniões, ratificam a visão de que a economia brasileira deve apresentar um movimento de recuperação no período, ainda que de forma lenta e gradativa. Nesse contexto, a melhora dos indicadores, aliada ao aumento da confiança dos empresários e dos consumidores, tendem a favorecer o aumento da produtividade no país.

Nesse contexto, espera-se que o Ibovespa reflita o melhor desempenho da economia previsto para o ano e mantenha a tendência de alta iniciada em 2016, ainda que de forma menos intensa. Os principais setores da economia devem mostrar números superiores ao do ano passado, o que tende a favorecer os investimentos.

No ambiente externo, as decisões do presidente norte-americano, Donald Trump, têm sido acompanhadas de perto. Analistas avaliam que o protecionismo defendido pelo presidente possa desencadear novas relações comerciais entre diversos países do mundo, o que poderá beneficiar outras potências do globo, sobretudo as economias emergentes. É importante ponderar, entretanto, que algumas das promessas radicais do republicano, caso sejam colocadas em prática, podem trazer tensão aos mercados e aumentar a aversão ao risco dos investidores, o que prejudicaria o Brasil.

DIRFI – Diretoria Financeira
GEREI – Gerência de Relações com Investidores